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Conferência II – 13/7/16 às 9h

Conferencista: Carlos Skliar



Conferência: "A leitura, a infância e a velhice".

Não têm a impressão que a mudança de época leitora - além de ser tecnológica, de afetar outra condição e cognição, de iniciar-se mais cedo - também é uma mudança de gestualidade, que impõe um tipo de expressão do corpo, das mãos, do rosto, mais privada, mais secreta, alheia à exterioridade perceptiva, sorridente sem que ninguém sorria conosco, reconcentrada em um mundo pequeno, fugaz como o movimento dos olhos, urgido de respostas? Não creem, também, que o que há mudado dramaticamente é a atmosfera da leitura, não apenas a individual, a da lamparina, a do ar livre ou escritório, a que entendia e confundia o ler com a amizade, a pausa, a detenção, o buscar um lugar onde ler, a praça, a escola, o pai, a mãe, a essência imperecível das avós e dos avôs? Não lhes parece que hoje a solidão é completamente outra, mais vazia, que busca socorros imediatos, que tenta descarregar sua ira contra tudo aquilo que não regressa imediatamente e que se tornou inimiga da leitura? Não sentem que nas cidades, nas casas, nas instituições, na cama, na rua, no rio, diante do mar, habita outro som mais parecido a um barulho incessante, a força voraz das expressões infinitas que ninguém lê, a produção exposta como ferida aberta sem que ninguém tenha tempo de se ver, de sentir compaixão? Não lhes parece que já ninguém quase lê porque sim, para nada, para ter a vivência da inutilidade, a virtude da preguiça, o elogio do que não tem proveito como mercadoria e justamente por isso vale a pena, e que tudo se tornou conceito, informação, ir ao ponto, fotocopiar a fotocópia, sublinhar o sublinhado, esquecer-se da língua materna, do ritmo, da poética da linguagem, e não ser seus servos obedientes? E, por último: Não terá que desobedecer a linguagem desta época? Quitamos a linguagem infecta do poder, a linguagem impostada pela técnica ou a negligência ou a indiferença? Reencontrarmos e re- encantarmos uma linguagem que diga algo, que nos diga algo? Me parece iniludível voltar a pensar a leitura como um gesto de eterno retorno ao tempo contemporâneo, a suas trevas, a seus claro-escuros, como esses segundos ou décadas presentes fundidos e talhados no passado e a espera de seu devir no silêncio da voz alta e na voz alta do silêncio, embaixo das estrelas, diante do fogo, em um umbral do amanhecer, nas aulas, no claro-escuro de uma solidão sempre ímpar. A educação é uma ponte para o futuro, sim, mas se faltasse o ar do passado no presente não haveria já nada para respeitar, nada para conversar, nada para contar, nada para narrar.

Sobre Carlos Skliar
Carlos Skliar é pesquisador independente do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Tecnológicas da Argentina, CONICET e pesquisador da Área de Educação da Faculdade Latinoamericana de Ciências Sociais, FLACSO-Argentina. Realizou estudos de pós-graduação no Conselho Nacional de Pesquisa da Itália, na Universidade de Barcelona e na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil. Foi coordenador da Área de Educação da FLACSO no período 2008-2011. Atualmente coordena os cursos de pós-graduação “Pedagogias das diferenças” e “Escrituras”.

Escreveu ensaios educativos e filosóficos, entre eles: ¿Y si el otro no estuviera ahí? (Miño y Dávila, Buenos Aires, 2001); Habitantes de Babel. Política y poética de la diferencia (con Jorge Larrosa, Editorial Laertes, Barcelona, 2001); Derrida & a Educação (Editorial Autêntica, Belo Horizonte, 2005); Pedagogia –improvável- da diferença (DP&A Editores, Río de Janeiro, 2006); La intimidad y la alteridad. Experiencias con la palabra (Miño y Dávila, Buenos Aires, 2006); Huellas de Derrida. Ensayos pedagógicos no solicitados (con Graciela Frigerio, Editorial del Estante, Buenos Aires, 2006); La educación –que es- del otro (Noveduc, Buenos Aires, 2007); Entre pedagogía y literatura (con Jorge Larrosa, Miño y Dávila, Buenos Aires, 2007); Experiencia y alteridad en educación (con Jorge Larrosa, Homo Sapiens, 2009); Conmover la educación (con Magaldy Téllez, Noveduc, Buenos Aires, 2009); Lo dicho, lo escrito y lo ignorado (Miño y Dávila, 2011, Terceiro prêmio nacional de ensaio); La escritura. De la pronunciación a la travesía (Babel Editora, 2012) e Experiências com a palavra (Wak Editora, 2012); Desobedecer a linguagem: Educar (Editora Autêntica, 2014) e O Ensinar enquanto travessia (EDUFBA, 2014). Diretor da coleção ‘Educación: otros lenguajes’ (Miño y Dávila, com Jorge Larrosa); ‘Pensar la educación’ (Homo Sapiens, com Andrea Brito) e ‘Filosofía de la Educación’ (Homo Sapiens). Publicou os livros de poemas Primera Conjunción (1981, Ediciones Eidan), Hilos después (Mármol-Izquierdo, Buenos Aires, 2009) e Voz apenas (Ediciones del Dock, Buenos Aires, 2011); participou da Antología de la nueva poesía argentina, organizada por Daniel Chirom (1980). Publicou o livro de micro-relatos No tienen prisa las palabras (Candaya, Barcelona, 2012) e Hablar con desconocidos (Candaya, Barcelona, 2014). Conduziu entre 2005 e 2011 junto com Diego Skliar o programa de rádio ‘Preferiría no hacerlo’, pela FM La Tribu,

Buenos Aires, Argentina.